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Do show para o DVD

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Como mixar gravações ao vivo parte 1

Hoje em dia, a maior parte do material de shows tem como destino a mixagem em surround, mas ainda resistem as versões em estéreo e primeiro vamos nos ocupar delas pra depois, sim, pensamos em surround.

Existem diferenças significativas entre um material captado em estúdio e um show. A primeira delas, e a mais óbvia, é a presença de plateia, tão importante que nos dedicaremos exclusivamente a ela mais adiante. Outra diferença é a presença muito comum de vazamentos nos microfones, e também o posicionamento não-ótimo deles. Por exemplo, no caso de um Sax, a grande maioria das microfonações que encontramos é feita apontando o microfone diretamente para a boca do instrumento, o que definitivamente não fazemos em estúdio. A razão de se microfonar um Sax desta forma ao vivo é para reduzir os vazamentos neste microfone, donde os dois fatores, vazamento e posição de microfones, estão intimamente ligados.

A coisa melhorou muito, recentemente, com advento dos monitores in-ear. O uso de simuladores no lugar de amps de guitarras e baixo também contribuiu muito para que tenhamos uma menor incidência de vazamentos. Quando não for este o caso, porém, a gente tem que conviver com o incômodo de ter em todos os microfones o instrumento em questão e mais um pouquinho de todos os outros e mais uma quantidade às vezes significativa de plateia.

É um clássico o caso de colocarem no amp de guitarra um [Shure] Sm58 pendurado na alça, apontando para o chão e encostado na tela. Ou seja, não é o melhor microfone para o caso, não esta apontando para o lugar certo ( colocá-lo a 90 graus diminui consideravelmente a captação de agudos ) e provalvemente não está na melhor posição em relação ao cone do falante.

Outro elemento que deve ser levado em consideração, principalmente quando temos um palco comportado em termos de vazamentos, é o PA ( o som local direcionado à plateia). O volume do PA muito alto e com muitos agudos normalmente será difícil de atenuar na mixagem. Ele virá junto com a plateia e não haverá como tirá-lo sem acabar com a ambiência.

À procura da performance perfeita

Além de tudo isso que citamos, ainda existe algo a considerar. Em um show é praticamente impossível conseguirmos uma performance absolutamente perfeita de todos os músicos. Por exemplo, no caso da voz, não é tão fácil afinar com um Melodyne, porque existe o vazamento dela no PA (não, não da pra afinar o vazamento, porque o afinador não consegue separar a voz do resto). Ou seja, o tempo todo precisamos avaliar se o que estamos fazendo em um canal não vai afetar a sonoridade dos outros.

Antigamente, gravava-se um show perto da última apresentação de uma turnê, ou mesmo na última (recentemente o Rush fez isso, deixando para gravar no último show no Rio, e quase se deu mau, pois houve um problema técnico que quase o fez perder todos os áudios - e não havia mais show para gravar).Isso garantia uma melhor performance de todos os músicos, por causa da íntimidade com o repertório.

Atualmente, está cada vez mais comum se montar um show para gravação de um DVD/CD, e só depois montar uma turnê em cima deste espetáculo. Em termos de resultado para o produto, isso é bastante prejudicial. Na hora de gravar, o show está sempre com menos ensaios que o ideal, tudo é novo para os músicos: iluminação, monitoração, marcação de palco, os câmeras, tudo. E não há como isso não afetar a performance.

Quem já teve a oportunidade de assistir à gravação de um show pode constatar que existem várias repetições, o que deixa o evento muito longo e leva à fadiga de todos os envolvidos, principalmente da plateia.

Resumindo, temos os seguintes fatores importantes:

  • Plateia
  • PA
  • Vazamentos
  • Microfonação
  • Performance

Então, antes mesmo de começarmos a mixar, precisamos muitas vezes estar preparados para não esperar que o resultado tenha mesma definição de uma gravação em ambiente controlado. É ai que a plateia entra para nos ajudar. Existe uma corrente que defente a colocação de plateia bem alto na mixagem, contando que isso passe ao ouvinte uma certa empolgação.

Plateias e Plateias

De todas as variáveis que temos de enfrentar, a plateia é a mais imprevisível e ao mesmo tempo a mais importante, já que se trata de uma gravação ao vivo.Tecnicamente falando, a primeira coisa com que se preocupar é se a plateia participa realmente do show e como participa. Se ela fica quietinha a maior parte do tempo, então temos que dar especial atenção ao vazamento do PA.

É muito útil também se quem gravou puder nos informar como estavam dispostos os microfones de plateia e ambiente. Numa situação real, estes microfones devem estar altos ( no sentido de distância do chão, não de volume) o suficiente para não focar demais em um determinado grupo de pessoas. Por outro lado, se eles estão altos demais, existe uma altura a partir da qual o volume do PA supera o da plateia, o que se deseja evitar a qualquer custo. Quando os microfones ficam baixos demais, então a captação se torna setorizada, privilegiando um determinado grupo de pessoas. Ai aparece o Temorema Número 1 da gravação ao vivo:

"Perto do microfone sempre está uma mulher que sabe todas as músicas, canta-as com extremo entusiasmo e é completamente desafinada."

E infelizmente isso não é piada. Parece que a presença do microfone aumenta a empolgação e desliga o Auto-tune de quem está por perto.

Outra fonte de problemas é o posicionamento assimétrico dos microfones em relação ao palco, o que pode gerar diferenças consideráveis de fase. Se houver pares de microfones a distâncias diferentes do palco, e quase sempre há, é preciso tomar cuidado também com a possível ocorrência de flanging entre eles.

O maldito assobio

Em termos de equalização, é sempre saudável cortarmos fortemente das médias baixas para baixo, já que a parte útil do espectro de frequências da plateia está nas médias e médias altas. A não ser que estejamos mixando o congresso anual de Associação de Barítonos do Brasil, podemos cortar então de uns 500 Hz pra baixo. Uma compressão forte também pode ser útil quando houver muita variação de dinâmica. Estes são canais em que certamente haverá grande trabalho de automação e em muitos casos será conveniente até mesmo zerar seu volume, pois não são poucas as veses em que há barulhos, conversas, etc.

Por falar em barulhos, vejamos o Teorema Número 2 da gravação ao vivo:

"Em toda plateia sempre existe pelo menos um indivíduo que adora assobiar e, quanto mais alto ele assobia, mais ele se realiza."

Se o mundo fosse feito para agradar mixadores, ninguém saberia assobiar. Pois o que mais atrapalha na hora de encaixar a plateia na mix é o Assobiador. Um

assobio típico é quase uma microfonia, entra em todos os microfones, inclusive os do palco. Quanto menor a casa de espetáculos, pior. Primeiro por motivos obviamente acústicos, e segundo porque o cara se sente mais poderoso com o reverb e manda ver a plenos pulmões. Ai vem um trecho que parece promissor, aplausos efusivos, uns "uhUl" aqui e ali, tudo perfeito, mas depois de cinco segundos entra ele , O Assobiador, para estragar.

O barulho de aplausos tem um comportamento típico de ruído (no sentido técnico do termo), pois são ruídos em grandes quantidades e em tempos aleatórios. O assobio, porém, tem um espectro bem estreito e alto volume, o que o torna muito característico, imprimindo uma marca sonora no momento que ocorre. O resultado é que, se copiamos os aplausos entusiasmados do final de uma música para uma outra menos empolgada, a presença de um assobio fará todo mundo identificar que houve uma cópia.

Quando se trata de mixagem de shows os aplausos são os pontos em que temos de demonstrar nossa criatividade e habilidade. Tem horas em que precisamos misturar palmas de várias músicas para conseguir o clima ideal de uma outra. E a manifestação do povo tem que soar coerente com o que acabou de acontecer.

Público animado ou não

Existem tipicamente dua plateias: a que desejamos e a que temos. Cabe a nós transformar a segunda na primeira. Uma atitude muito útil é ouvir o show todo e identificar as músicas em que a reação da plateia é boa e tentar usar estes trechos onde for necessário. Ao final da mixagem é prudente também samplear e guardar os trechos bacanas de apalusos, pois eles podem ser úteis em futuras oportunidades. Aplausos de arquivos tipo Sound Ideas normalmente soam como sonoplastia de rádio, então é melhor ir montando o seu próprio banco de plateias.

Refações

Outra característica que se conta na maioria das vezes são as refações, que são coisas que não ficaram boas na captação e foram refeitas em estúdio. Neste caso o maior trabalho é conseguir ambientar a refação no show. E, para nos preocupar mais uma vez, não podemos esquecer que o vazamento do instrumento original nos outros microfones (principalmente no PA) continua lá e vai chocar com a refação. É por isso que é quase impossível refazer qualquer coisa de bateria, pois, além de ser bem difícil de dublar (quando há vídeo), ele é o instrumento que mais vaza. Costuma-se dizer em estúdio que na captação a única coisa que tem de valer 100% é a bateria, pois sempre há um jeito de corrigir no estúdio.

Para o mixador, pior que se refazer  um instrumento em uma música toda é refazer apenas um frase ou poucas notas. Isto porque fica muito difícil igualar o timbre. Até o jeito de tocar muda. Uma prática usual ao se refazer uma voz ou trecho de voz é usar o mesmo microfone que no show, porém o ambiente controlado do estúdio, a empolgação, o jeito de cantar, tudo é tão diferente que acaba sendo melhor gravar com o melhor microfone disponível. De acordo com a Segunda Lei da Termo Dinâmica, é muito mais fácil passar de um som mias bonito para um menos bonito. Ou seja, mesmo com um plug-in simulador de microfones é bem fácil transformar um [Neumann] U 87 em um [Shure] SM58, já o contrário...é melhor refazer bem e ter maiores possibilidades de mexer no timbre.

Quando existe a captação de vídeo, então, a refação merece mais antenção ainda, por causa do sincronismo. Não foram poucos os casos em que edições precisaram ser feitas trocando alguém que estava em close na hora da refação.

Revista Áudio Música & Tecnologia - Ano XXII - Agosto/2009 nº 215.